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Apresentação do II SABER UFF

Para SILVA, um jovem estudante simpatizante do behaviorismo, um suporte institucional behaviorista praticamente inexistia quando de seu ingresso na UNIVERSIDADE. Salvo por sua participação na disciplina de Hunter, seu contato com os demais professores do departamento de psicologia sinalizava um contexto avesso a qualquer orientação naquela perspectiva psicológica. O único apoio behaviorista encontrado por ele na UNIVERSIDADE se deu por vias informais: por intermédio de pequeno número de alunos simpáticos à abordagem que mantinham um grupo de debate com o intuito de assegurar espaço mínimo para a área na UNIVERSIDADE. No contato com FRED, um dos seus veteranos, SILVA obteve apoio capaz de sustentar sua adesão inicial ao behaviorismo naquela instituição. (…) Ademais, o início da relação entre os dois foi para SILVA antídoto contra as influências mentalistas existentes na UNIVERSIDADE. Nas palavras de SILVA: “Foi por causa grandemente de FRED que eu resisti à predisposição mentalista do departamento e permaneci um behaviorista”[i].

O parágrafo anterior, salvo pela mudança dos nomes em caixa alta, é um relato da experiência de B.F. Skinner (SILVA) em Harvard (UNIVERSIDADE) e de seu contato com Fred S. Keller (FRED). Contudo, o relato pode ser estendido à experiência de alunos que se interessam por Behaviorismo em algumas universidades brasileiras. É provável que diversos alunos, ao substituírem os nomes SILVA, FRED, UNIVERSIDADE e o do professor (HUNTER) pelos de sua própria experiência obtenham um relato que seja ipsis litteris o da sua própria história.

Embora vigoroso em várias partes do Brasil e do mundo, o ensino do Behaviorismo segue lutando contra condições adversas em algumas localidades. Nesses casos, onde a ausência institucional para essa escola da Psicologia é uma realidade, é necessário fazer uma avaliação das contingências vigentes e intervir para reverter a situação e permitir que aqueles estudantes interessados na Análise do Comportamento possam aprender a corrente teórica que escolheram.

Ensinar e aprender são interconectados no Behaviorismo, não se pode falar de um sem o outro. Só há ensino se o comportamento do aluno se modificar, sem metamorfose não há aprendizagem. Comportamento entendido aqui na perspectiva da Análise do Comportamento, o que inclui pensamento, linguagem, memória, criatividade… Nesse contexto, qualquer ação ou prática docente que não produza modificação no aluno não é ensino. Segundo Skinner, ensino pode ser entendido como o arranjo de contingências sob o qual o comportamento dos alunos se transforma e, por conseguinte, modifica a relação do sujeito com o mundo. O papel do professor, então, não é transferir conhecimento, como na educação bancária, mas organizar as contingências para que os alunos aprendam.

Na medida em que cada história é única, os processos de aprendizagem pelos quais passamos ao longo da vida permitem construções idiossincráticas de cada sujeito e das relações comportamentais que estabelece com o mundo. Cada sujeito é único e a aprendizagem no Behaviorismo é, por definição, transformadora. Nesse sentido, em um paralelo com Paulo Freire, as modificações decorrentes da aprendizagem podem conformar sujeitos ativos e transformadores de sua própria história. Ao aprendermos a Análise do Comportamento, nos propomos a escrutinar as contingências que controlam a nós e ao mundo. Se formos felizes nessa aprendizagem, compreenderemos as contingências às quais estamos submetidos e seremos capazes de ler o mundo e transformá-lo.

Assim, dentro dessa perspectiva emancipadora, é possível imaginar B.F. Skinner e Fred S. Keller estabelecendo DIÁLOGOS SOBRE A FORMAÇÃO EM ANÁLISE DO COMPORTAMENTO. Keller afirmando que “O aluno sempre tem razão (…) e pode aprender muito, se soubermos prever as contingências de reforçamento adequadas”[ii] e Skinner propondo que o uso de “Uma tecnologia do ensino pode (…) planejar contingências ambientais que darão lugar a mais promissora diversidade”[iii].

Considerando que o papel do professor é arranjar as contingências para que os alunos aprendam, este II SABER (Simpósio Acadêmico de Behaviorismo Radical) se debruça sobre a formação em Análise do Comportamento e as contingências vigentes para a aprendizagem do Behaviorismo no Rio de Janeiro e na Universidade Federal Fluminense (UFF) em particular. Os temas tratarão das possibilidades de formação no Behaviorismo que ocorrem por fora do currículo da universidade, como a divulgação e acesso de materiais disponibilizados na internet, a realização e participação em eventos, a participação em grupos de estudos e ligas acadêmicas. No caso específico da UFF, os professores envolvidos com as disciplinas da Análise do Comportamento falarão das experiências, possibilidades e dificuldades pertinentes a esse campo da Psicologia em cada campus da instituição.  Por fim, em nosso pós-evento (SABER em debate), teremos uma roda de conversa em que serão debatidas as experiências de alunos e ex-alunos com o Behaviorismo para além da UFF, seja envolvendo mudança de universidade, ingresso em curso de pós-graduação ou trabalho com ABA nos EUA.

Organizamos este II SABER (Diálogos sobre a formação em Análise do Comportamento) com a perspectiva de analisarmos os caminhos formativos em Análise do Comportamento dentro e fora de nossas instituições, compreendermos as contingências em vigor e, assim, pensarmos possibilidades de transformação do mundo para que todo aluno, caso queira, possa ter acesso à formação em Behaviorismo sem os dilemas encontrados na história de Skinner e Keller. Aproveitem este II SABER!


[i] Texto reproduzido com pequenas modificações de: CRUZ, R. N. B.F. Skinner e a vida científica: uma história da organização social da análise do comportamento. Tese (Doutorado em Psicologia) – UFMG, Belo Horizonte, 2013.

[ii] KELLER, Fred. Adeus, mestre!. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v. 1, n. 1, p. 9-21, 1999.

[iii] SKINNER, Burrhus Frederic. Tecnologia do ensino. E.P.U., 1972.

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